STYLE – LINO VILLAVENTURA O MAGO DA ALTA COSTURA BRASILEIRA

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O trabalho minucioso e a obsessão pelos detalhes colocam o brasileiro Lino Villaventura junto aos mestres que elevam as roupas ao status de arte com criações memoráveis e um estilo inconfundível. Lino nasceu Antonio Marques dos Santos Neto, em Belém do Pará, em 1951. Filho de um comerciante de peles exóticas e também dono de uma fábrica de guaraná, aos 20 anos mudou-se com a família para Fortaleza, cidade que influenciaria sua obra, com suas rendas e nervuras primorosas.ImagemImagemImagem 

O nome artístico, hoje parte do RG, é a soma do apelido de infância com o bairro onde vivia na capital cearense, a Vila Ventura. O menino, que trocava a bola pela leitura, cresceu gostando de artes e cinema. Em 1978, colocou a criatividade à prova ao fazer um presente para a sua namorada da época, Inez, sua companheira até hoje. Para isso, contou com a ajuda de uma de suas irmãs, Graça, com quem dividia uma longa lista de afinidades. Juntos, os dois costuraram um colete feito de sacos de trigo. Lino lavou, alvejou e tingiu o algodão rústico em busca da cor ideal. Depois, bordou minuciosamente espelhos, contas e miçangas, bem no mood indiano que dominava a moda na mais hippie das décadas. O sucesso foi enorme e choveram encomendas. Logo, vieram as bolsas de macramê de barbante e, por fim, túnicas e vestidos – todos rigorosamente feitos à mão.Imagem 

A fama se espalhou rapidamente e uma senhora da alta sociedade encomendou um conjunto preto para ir a uma festa importante. Lino costurou uma blusa e uma saia lápis de ataduras, em uma espécie primitiva do bandage à la Hervé Léger. Não deu outra: o jornal local publicou a foto do look, juntamente com o retrato de Villaventura, na coluna social. Nascia, assim, o Lino estilista. “Até então, era tudo brincadeira. Eu estava morando no Rio e fazendo faculdade de engenharia civil. Quando leram a matéria, meus pais acharam que eu estava louco”, conta. Imagem 

Talento reconhecido
Dois anos mais tarde, em 1980, de volta à Fortaleza, Lino e Inez inauguraram a primeira loja, com foco nas peças sob medida. Mesmo fora do eixo Rio-São Paulo, o estilista começou a receber convites para participar de alguns dos eventos mais importantes da moda brasileira da época. Em 1984, participou pela primeira vez da Fenit (Feira Internacional da Indústria Têxtil), na capital paulista.ImagemImagem 

Ao todo, foram seis edições da feira. Depois, vieram os lançamentos em um hotel em São Paulo, sucedidos pelo showroom no apartamento da rua Bela Cintra, no bairro dos Jardins. O trabalho autoral e genuíno chamou a atenção de pesos pesados da moda mundial, como a francesa Marie Rucki, diretora do prestigiado Studio Berçot, em Paris. Em 1987, Lino foi escolhido pela rede de TV francesa FR3 como o representante da moda brasileira, em um documentário intitulado Brasil, País da Esperança. No ano seguinte, o Stedelijk Museum, de Amsterdã, adquiriu para seu acervo permanente um vídeo com registro de diversos trabalhos do estilista.Imagem 

Paralelamente aos desfiles, ele passou a assinar também o figurino de balés e montagens teatrais, como Doroteia – Uma Farsa Irresponsável em Três Atos, de Nelson Rodrigues. Aliás, teatro e cinema sempre tiveram lugar cativo em seu rol de inspirações. E cada entrada na passarela de Lino parece corresponder a um ato cênico. Tudo é teatral: da trilha sonora à maquiagem, dos cenários aos looks. Em 1998, ele levou a plateia às lágrimas em um de seus desfiles preferidos, que trazia uma coleção em homenagem aos dândis e ao decadentismo. “Cobri a passarela com tapetes persas caríssimos, coloquei um biombo, uma arandela com ‘300 mil velas’, um recamiê de antiquário e um garoto de tranças, deitado e com um salto enorme. As modelos tinham os dentes escurecidos por ma- quiagem e entravam em cena fumando cachimbo. A Marina Dias (modelo) lia Rimbaud”, conta. Era difícil ficar imparcial diante de tanta opulência. “A Erika Palomino adorou. A Regina Guerreiro falou que aquilo não era desfile. Era teatro”, conta. De fato, a linha era tênue e inédita na história da moda nacional. Segundo o próprio estilista, “só faltava o texto, já que todos os outros elementos estavam lá”.

Mais do que um criador de moda, Lino é um artista que usa as roupas como forma de expressão. “Ele é muito mais estilo do que moda. Moda precisa de consenso e o que Lino propõe é subjetividade mesmo”, afirma João Braga. Fiel a seus princípios, Lino utiliza recursos suigeneris para um estilista contemporâneo. Entre as curiosidades, estão os temas dos desfiles, sempre bastante eruditos. O último, do inverno 2012, fez referência ao pintor irlandês Francis Bacon. Mas engana-se quem espera encontrar uma interpretação literal das obras. Lino traduz tudo de maneira própria, com bordados e tramas rebuscados. “Na sua roupa, não há a necessidade de uma assinatura. Você logo reconhece o autor, como uma arquitetura de Niemeyer,” explica Braga.

Amante dos detalhes, durante anos não admitiu que nenhuma roupa tivesse as costuras visíveis, nem mesmo pelo avesso. “Gosto do feito a mão. Isso dá pre- ciosismo ao trabalho, exclusividade. Esse trabalho minucioso é o que faz com que as coisas perdurem.” Hoje, menos radical, assina também uma segunda linha, a Villaventura, mais acessível e despretensiosa. Ainda assim, passa longe do lugar- comum. “Ela tem a minha identidade, com texturas e acabamentos diferenciados, mas é uma coisa mais solta”,

 

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